O Largo dr. Cerejeira é o maior largo da aldeia de Comenda e inclui mesmo o jardim que tem o nome de Manuel Jesus Duarte, o presidente da junta que ainda hoje é recordado com saudade e como exemplo de serviço público.
Este é um largo que se...alarga, na zona sul da aldeia, perto do seu casco histórico, desde o largo dr. Alves Costa - a que se sobrepõem curiosamente os nomes do professor Manuel Monteiro e da sua mulher - até receber as ruas Josefa Gouveia e encostar ao Largo Padre Horácio. Dá para perceber que este Largo dr. Cerejeira tem largos vizinhos quase por todo o lado, sendo ainda atravessado pela principal rua da Comenda, a que leva o nome de dona Delfina Pequito Rebelo. Outrora, conheceu mesmo uma pequena rotunda arvorizada que era uma das marcas desta aldeia.
Pontuado por laranjeiras, este largo mantém uma sobrevivência toponímica do tempo do Estado Novo, tendo sobrevivido ao ímpeto revolucionário pós-25 de abril que apeou muitas placas toponímicas, num tempo ainda em que as ruas eram sobretudo conhecidas pelos nomes de algumas pessoas relevantes nesses locais, como eram os casos do Largo do Ti Cortez (hoje Nossa Senhora das Necessidades) ou a rua do Albino (hoje dr. Freitas Martins).
Foi neste largo que durante muitos anos se realizaram as festas da Comenda, em setembro. Um largo que não mudou muito em termos de edificado mas que nos últimos anos conheceu algumas recuperações nas suas casas.
Médico minhoto que se fixou em Gavião
Mas quem era, afinal, Júlio Cerejeira? Médico, nascido em Lousado, Famalicão, Júlio era um dos oito filhos de um artesão e lavrador minhoto. Um dos seus irmãos, Manuel Gonçalves Cerejeira, seria durante muitos anos cardeal patriarca de Lisboa, identificando-se com o regime inventado por António Salazar e sendo um dos seus rostos, ele que foi tornado cardeal com apenas 29 anos, quando chegou ao Colégio de Roma, ficando conhecido como "Cardeal Bambino".
Mas não é o Cardeal Cerejeira que nos traz cá mas o seu irmão Júlio, delegado de saúde do concelho de Gavião durante mais de 20 anos, em meados do século XX. Numa das atas da junta de freguesia de Comenda transcritas por Luís Vieira, em 1951 Júlio Cerejeira escreve uma carta à junta de Comenda em sua defesa, justificando a sua ausência na Comenda devido ao facto de a travessia da Ribeira da Venda, a vau, estar intransitável. Isto quando era também médico da Casa do Povo da Comenda, cargo que passouo dr. João Machado Levita.
Hoje, o doutor Cerejeira e não o cardeal mantém viva a sua memória num dos lugares mais emblemáticos da aldeia de Comenda.

