A margem direita da Ribeira da Venda, na área do atual parque de merendas, já justificou alguns estudos de prospeção arqueológica, nomeadamente em 2020, quando uma equipa da ERA ARQUEOLOGIA aqui fez o seu estudo de impacto ambiental com foco nas evidências arqueológicas.
Sabemos que a área já tinha merecida a "visita" de alguns arqueólogo amadores, que recolheram materiais e que por norma não fizeram registo e que muitas vezes ficaram na posse dos mesmos, como é "tradição" num país onde se desmontaram muitas vezes villas romanas para usar a pedra em construção comum.
Referem os técnicos da ERA ARQUEOLOGIA que ali foram documentados "materiais cerâmicos e de construção de época romana", o que pode confirmar a utilização daquele espaço já há cerca de dois mil anos, sendo quase certo que em época medieval e moderna o caminho que ali passa continuava em uso, justificando mesmo a continuidade de uma estação de muda de animais de transporte e a tal "venda" e estalagem que acabou por dar o nome à ribeira.
Mas a verdade é que a ERA ARQUEOLOGIA procedeu à prospeção de toda a área do parque de merendas e não detetou "qualquer vestígio de ocupação antiga, para além da ponte", que atribui a época romana ou medieval. "Foram verificados desaterros e acumulações de terras resultantes desses trabalhos, associados à construção de uma nova piscina junto da que já existe", refere-se no relatório.
"Os materiais antrópicos presentes são todos contemporâneos, provenientes do desmantelamento de uma construção que aí existia e apenas se registaram alguns fragmentos de cerâmica de construção de pequeno tamanho, com características antigas, talvez romanas ou tardo-romanas/altomedievais, na parte inferior da plataforma que se localiza a noroeste do Parque de Merendas", escreve-se ainda quando se define esta área como de "sensibilidade arqueológica".
Mas também durante os trabalhos para captação de água no Vale do Frio, para abastecimento da Comenda, nos anos 70, foi registada, durante a escavação de valas, ossadas provavelmente relativas a um pequeno templo que ali existiu e que enquanto esteve ativo proporcionou enterramentos no seu interior e em redor, como aconteceu em Portugal até meados do século XIX. O arqueólogo Rogério Carvalho esteve ali posteriormente e recolheu cerâmica e telha de origem romana, para além de um fragmento de mó manual.
Agora, que se pondera um novo desenho para o parque de merenda, com a construção de uma zona para autocaravanas, seria interessante que a Câmara Municipal de Gavião tivesse em conta estes estudos, imponde-se um natural acompanhamento arqueológico da obra que irá decorrer. Para que a história não fique definitivamente sepultada numa área que, curiosamente, tem uma bela sepultura escavada na rocha na margem esquerda da ribeira da Venda, sinal de que aqui houve povoamento na transição do primeiro para o segundo milénio.
Esta é, pois, claramente uma área de sensibilidade arqueológica e tal deve estar entre as prioridades na hora de avançar com as máquinas.
