Voltamos ao Chamiço para contar mais uma história sobre o seu abandono


O histórico lugar do Chamiço, na freguesia do Monte da Pedra, é um dos sítios sob ameaça devido a mais um grande projeto de produção de energia fotovoltaica, este com a assinatura da Endesa. Uma preocupação que não deve ser só das gentes do Monte da Pedra mas também de todos os que estimam os valores patrimoniais e históricos deste território que é o Alto Alentejo. Em questão está, neste caso, sobretudo a abertura de largos corredores para a passagem aérea de energia de alta tensão resultante do parque solar a instalar entre o Monte da Pedra e o Crato.


Por aqui. De um lado e do outro da estrada entre o Crato e o Monte da Pedra. Mas não só. As linhas cruzarão também a freguesia de Comenda e Margem.

Mas hoje não será sobre esta "invasão dos painéis" que ninguém conseguirá travar, sobretudo agora que o governo determinou uma via de alta velocidade para a executação deste projetos (bem mais fácil que a alta velocidade ferroviária!), que queremos falar mas sim da aldeia desaparecida do Chamiço.


Lugar onde a população do Monte da Pedra se junta todos os anos para celebrar o Santo Isidro, cujo capela permanece em boas condições, entre as ruínas da antiga aldeia, a cerca de 5 quilómetros para nascente do Ponto da Pedra.

O antigo Monte Chamisso onde viviam, segundo as memórias paroquais de 1759, 81 pessoas. O abandono da aldeia é justificado com algumas histórias e lendas, uma delas vertida para a documentação pelo grande arqueólogo José Leite Vasconcellos, onde foi contada a história de uma viúva rica do lugar, dona Carita, que abandonou o sítio após um assalto, algures no século XIX.

Petição ao Grão-Prior do Crato

Porque na investigação histórica nem sempre tudo bate certo, o investigador Manuel Subtil, num documento que nos chegou através de João Miranda, um montepedrense que se fixou na Comenda por via do matrimónio e que hoje é um dos gerentes do café "O Choupinho", escreve que em 1760 viviam no Chamiço apenas 22 vizinhos, ou seja, a aldeia já seria muito pouco povoada. Estes 22 vizinhos pode ser apenas uma referência a fogos (casas habitadas) e se assim for temos de multiplicar por 4 ou 5 para chegar ao total de residentes, o que nos leva para um número próximo do referido nas memórias paroquiais mandadas fazer pelo Marquês de Pombal.

Explica Manuel Subtil que por essa altura os vizinhos dirigiram uma petição ao Grão-Prior do Crato queixando-se da pobreza das terras e da obrigação de anualmente pagar ao padre local (então Francisco Dias Mota) um moio de trigo. No essencial, pediam ao Grão-Prior que fosse ele a pagar ao pároco, tal como acontecia no Monte da Pedra.


O almoxarife do Crato, João Carrilho, informou o procurador e a mesa prioral e a petição foi deferida, o que provavelmente aliviou as gentes do Chamiço - onde muitos já trabalhavam noutras terras - por alguns anos.

Volvidos menos de 100 anos, a guerra civil entre liberais e absolutistas terá contribuído também para o fim da aldeia do Chamiço pois a situação económica degradou-se em todo o país e o Priorado do Crato foi extinto e passou a pertencer à Casa dos Infantado. Situação que terá acabado também com alguns dos privilégios dos moradores, tornando ainda mais difícil a sua permanência.


"Tornou-lhes a vida insustentável e foi o começo da debandada", escreve Manuel Subtil, referindo que muitos foram viver para o Monte da Pedra e o Vale do Peso, por exemplo. Mal eles sabiam que no início do século XXI os terrenos paupérrimos do Chamiço viriam a valer ouro para quem do sol faz energia e da energia capital.