Esta imagem de uma das mais de 30 povoações do concelho de Gavião, onde vivem menos de 3400 pessoas, ilustra bem um dos problemas que por aqui são evidentes: um défice demográfico que vai deixando aldeias quase desertas (como este Outeiro Cimeiro, no concelho de Belver) e com o que resta da população com uma idade muito avançada.
Para além do mais, as forças produtivas do concelho são quase todas de pequenas dimensões, com raras exceções de empresas de um patamar um pouco superior. A zona industrial de Gavião, por exemplo, perdeu recentemente para Portalegre uma das maiores empresas de obras públicas do Alentejo - a Urbigav - e a corticeira que lá está encontra-se à venda.
Resulta de tudo isto que a Câmara Municipal de Gavião e a Santa Casa continuam a ser as maiores empregadoras do concelho, concentrando a grande fatia do mercado de trabalho. Uma realidade comum a outros pequenos concelhos do interior.
Como sair desta espiral? Será sempre muito complicado e é uma situação que muitas vezes depende de um golpe de sorte, através da instalação de uma empresa de grande dimensão que aqui se instale mas num cenário sempre muito improvável pois esse grande investidor terá sempre de "importar" mão de obra. É tal pescadinha de rabo na boca.
Vem isto a propósito de uma publicação recente com base no Anuário dos Municípios Portugueses de 2024 que gerou bastante interação crítica, com um certo azedume a ser carregado na tecla em relação à gestão municipal. Que se saiba, no Largo do Município não foi ainda encontrada uma mina de ouro capaz de trazer subitamente capacidade financeira à Câmara para sonhar com voos muito mais altos...
A realidade nua e crua está, por exemplo, no quadro acima. Gavião é um concelho com uma receita residual e que depende das transferências do Estado ou de fundos, pois as suas receitas correntes são quase residuais.
O IMI, por exemplo, rendeu em 2024 apenas 320 mil euros, um valor que nos últimos ultimos dez anos de dados andou sempre por aqui. Gavião é 26.° concelho em 308 que menos cobra IMI e mesmo assim mantém a sua taxa no mínimo que a lei permite, tentando que este seja um factor de atratividade, tal como acontece ao devolver aos residentes todo o IRS a que tem direito e com a derrama para as empresas.
E quem fala da receita de IMI fala também do IUC, quadro no qual Gavião surge no 14.° lugar nesta Liga dos Últimos, com quase 74 mil euros de receita, apenas mais 66 mil euros que o concelho do Corvo, nos Açores.
São números que nos remetem para uma realidade que não cabe nos sonhos de quem muita vezes cria nos teclados uma utopia que choca logo de frente com um quadro destes.
A verdade é que enquanto o Estado central não decidir colocar fichas no desenvolvimento dos pequenos concelhos, sair desta situação será sempre um trabalho de Hércules. Enquanto tal não acontecer, a gestão de municípios da dimensão de Gavião tem de ser centrada num plano rigoroso e realista, sem a tentação de acrescentar encargos permanentes pesados que de algum modo ponham em risco o futuro. Os sonhos, esses, podem ficar com os sonhadores.


