Estão a completar-se quatro anos desde que para aqui viemos assentar arraiais. Galegos do Sul entre a Beira e o Alentejo não é propriamente uma novidade histórica. Desde o dealbar da nacionalidade, pelo menos, que o povo do Norte desce até estas terras e muitas vezes aqui se fixa.
Volvido este tempo, penso ter hoje um conhecimento razoável do território definido pelo concelho de Gavião, um concelho que tem a singularidade de colocar no Alentejo uma terra que está aquém Tejo: a freguesia de Belver. A imagem que veem é de uma das mais remotas aldeias de Belver, o Outeiro Fundeiro.
Este é um concelho que Hermano Saraiva, quando aqui veio, definiu como "um Alentejo diferente" e isto foi tiro na mouche.
Gavião tem várias realidades. Começando por Belver, que nunca foi sede da Ordem dos Hospitalários e que capitaneou as Terras de Guindidesta, mas que ainda tem o mais importante castelo da também conhecida como Ordem de Malta. A vila de Belver vive à sombra do castelo e escorre para o Tejo. É uma das mais belas vilas portuguesas, de onde partem três eixos: um para poente, através das Torre (Cimeira e Fundeira) que encontra o grande rio em Ortiga; outro para norte, correndo as Arriachas e Domingos da Vinha, passando a A 23 e encontrando, no limite com Mação, Vale Coelho, Furtado e Vale da Mó, todas estas aldeias muito pouco povoadas; e outro para nascente, encontrando a altaneira Alvísquer, Areia e os Outeiros, com Vale Pedro Dias em posição um pouco excêntrica, já no caminho para Envendos (a terra do belo presunto Da Matta).
A sede do concelho, por seu lado, possui uma atividade comercial que está longe de satisfazer todas as necessidades e, tal como no resto do concelho, é sempre necessário fazer alguns quilómetros até se encontrar tudo a que julgamentos ter direito: em Abrantes, Ponte de Sor ou Portalegre. A vila vive apenas um passinho à frente do ambiente a que podemos chamar comércio tradicional.
No entorno da vila de Gavião, implantada em planalto altaneiro e que nunca teve castelo mas apenas torre de atalaia ou de prestígio, o Cadafaz é uma aldeia praticamente ligada à sede do concelho, no caminho para a praia fluvial do Alamal e hoje vizinha de um grande empreendimento hoteleiro - o excelente Gavião Nature Village, uma das grandes mais valias do concelho nos últimos anos.
Tem Gavião também dois eixos que correm de norte para sul e apanham a freguesia de Margem, freguesia que em tempos foi concelho juntamente com Longomel (Ponte de Sor). Um primeiro definido pela estrada nacional para Ponte de Sor, com S. Bartolomeu, Monte Velho e Monte Novo, um eixo no qual podemos colocar também a aldeia de Amieira Cova, que pertence à União das Freguesias de Gavião e Atalaia mas "escorre" neste sentido, sendo uma das aldeias mais isoladas do concelho, dividida em duas vertentes, onde só junto à ribeira não se sobe ou se desce. O outro grande eixo é definido pelas aldeias de Vale da Vinha, Ferraria (esta na freguesia de Comenda mas muito ligada a esta realidade), Vale de Bordalo, Vale de Gaviões (estas duas últimas coladas), Vale do Gato, Vale da Madeira, Monte dos Pereiros e Moinho do Torrão, todas terras da ribeira de Margem, que se encontra no limite do concelho com o Sor e que dá nome à freguesia que tem sede em Vale de Gaviões (onde Mouzinho da Silveira, natural de Castelo de Vide, quis ser sepultado).
O Alentejo só surge no eixo nascente-poente, logo nas aldeias da Degracia Cimeira e Fundeira e na Atalaia, terras da União das Freguesias de Gavião e Atalaia. Mas é na freguesia de Comenda que o Alentejo aparece em todo o seu esplendor, à volta das aldeias de Comenda/Castelo Cernado e do Vale da Feiteira, aldeias que têm no concelho as ligações mais fortes à atividade comercial de Nisa e de Portalegre.
Com pouco mais de 3.200 habitantes e um território de 300 quilómetros quadrados, não é preciso fazermos um desenho para falarmos de uma baixa densidade populacional do concelho gavionense, a que acresce uma atividade indutrial de baixa intensividade (a maior empresa, a construtura Urbigav, prepara-se para mudar a sede para Portalegre), com base na sivicultura e com atividade significativa também na produção animal (na Atalaia), sendo que falhou a aposta, que custou alguns milhões, numa empresa de transformação de cortiça e também na implantação de uma grande plataforma logística em Domingos da Vinha. Não tem sido um trabalho fácil para os autarcas captar investimento sobretudo porque a concorrência é forte, anda aí muita gente a vender a banha da cobra e nos últimos anos o país não tem sido pródigo nos incentivos para quem quer investir no interior. Mas não vimos ninguém baixar os braços. É caso para dizer que a luta continua e já por aqui temos uma magnífica Incubadora de Empresas a querer ser um dos motores de um desenvolvimento que tarda.
Gavião é apenas uma das realidades de um país para o qual os políticos que dormem e comem em Lisboa só olham de quatro em quatro anos, quando aqui passam a agitar a bandeira do desenvolvimento regional. Quem aqui está já sabe que dali não leva nada mas não se pode baixar a guarda pois pode haver um dia de distração...
Também é por isso que andamos por aqui, tentando mostrar Gavião ao resto do país. É o nosso modesto contributo, enquanto tivermos forças para isto nesta terra que nos acolheu e onde gostamos de estar e quem todo um potencial ainda por explorar, sobretudo ao nível turístico e da oferta de um lugar que prima pela qualidade de vida. Não que por aqui por vezes não se sinta stress pois a espécie humana tem um gene especial do desassossego...






