Não é a primeira vez que uma foto suscita histórias e que estas são contadas graças à prodigiosa memória de Luís Guedelha, como esta a propósito desta casa da Rua Dona Delfina Pequito Rebelo que hoje é da família de Flávio Ribeiro. Uma casa fora da caixa, na linha da nova arquitetura de meados do século passado e que deve ter causado alguma sensação numa aldeia de construção tradicional.
"Conheço bem esta casa assim como conheci os donos, Abílio Alves e a sra Leocádia, muito amigos dos meus pais. Muita vez aqui entrei com a minha querida vizinha Josefa Nunes, mãe do Abílio Alves. O poço em frente da casa quando foi aberto a terra o barro e salitre tirado de lá muito dele foi aqui pelo Guedelha e mais alguns cachopos desse tempo, através de uma roldana e depois despejado numa carrinha pequena de caixa aberta do Abílio Alves, com tudo despejado nos buracos dos caminhos velhos fora da aldeia.
Assim íamos despachando o material e era uma loucura para a malta com o Abílio Alves a fazer rali com a carrinha pelos caminhos velhos.
No regresso íamos para a taberna do ti Cortês beber ginjinhas...
A história de um poço
E assim se abriu e lá está ainda hoje o poço em frente da casa.
O Abílio Alves foi uma das melhores pessoas que conheci e convivi e se o trato por Abílio Alves era porque ele sempre assim o quis.
Muita vez ele ficava na oficina do Manél Plétos, vizinho dos pais dele e dos meus pais, a martelar ferro na bigorna com o Plétos ou a ouvir relatos de futebol no velho rádio Philips onde se juntavam muita vez o padre Lobato o sr José Domingos o Manél Fitas o Severino Estrela o João Maia e o chefe João Pereira e no fim ...discussão danada, uns eram do Benfica outros do Sporting.
Pois é ...cada sítio ou lugar têm a sua história e a casa do Abílio Alves e da dona Leocádia também. Vi-a construir e até banho tomei no grande tanque que tem ou tinha no quintal nas traseiras, com a tia Josefa Nunes ali a controlar e... Ó Gaspinho já chega, temos de ir embora...Ó ti Zéfa só mais um mergulho dizia eu.
Ó pá que saudades desse tempo e de toda aquela belissima gente
PS: Mas tem mais quem andou lá com uma vara dobrada nas mãos para ver onde estava a água para se abrir o poço foi a Ilda (informou Fernanda Pires sobre o nome), mulher do Chico Charrapo. Era a mãe do meu grande amigo Manél Charrapo e moço do meu ano infelizmente já falecido. Foi graças a ela que o poço ali foi aberto e...estava certa. Eu ao vê-la fazer aquilo também aprendi a fazê-lo e nunca mais me esqueci daquele momento. É aqui, dizia ela, ao mesmo tempo que a vara de marmeleiro apontava para o chão. Repetiu várias vezes E em todas elas a vara só naquele sítio vergava apontando para baixo.
Um construtor civil que fez obra, uma bala na cabeça e o "morto' que dormia no jazigo
E mais:
"Um dos pedreiros que ali andou na construção da moradia foi o irmão do Manél Fitas, o Armando Sabino também já falecido, tio e padrinho do Armando Fitas.
O antigo dono desta casa, Abílio Alves da Silva, foi um dos construtores de construção civil do Barreiro, no século passado. Ali construiu vários prédios que contribuíram também para o grande crescimento do Barreiro, muitos que ali se encontram ainda hoje foram construídos por ele e até ali tinha um andar onde vivia quando por ali ficava...
Muitos não sabem mas o Abílio Alves tinha uma bala na cabeça causada por um tiro. E aqui no Barreiro morreu não de um tiro nem da bala mas atropelado numa "passadeira", segundo ouvi .
Foi ele que construiu o primeiro jazigo no cemitério da Comenda e lá está sepultado, o primeiro a inaugurar o sítio foi o sogro o ti Manél Soares...
Ouvi dizer umas histórias que quando o Abílio Alves estava a construir o jazigo às vezes tirava um descanso e dormia uma boa soneca dentro dele e um dia durante uma dessas sonecas uma mulher foi ao cemitério para meter flores na campa dum seu ante querido e ao passar em frente do jazigo em construção do Abílio Alves teve curiosidade e resolveu espreitar lá para dentro... Foi nesse momento que a mulher começou a olhar e viu um corpo deitado lá dentro .
Nesse mesmo instante o Abílio Alves ao ouvir barulho levantou-se para ver o que se estava a passar lá fora ...
Ouvi dizer que a mulher desmaiou pois pensou ser um morto a levantar-se e o Abílio Alves ... aflito teve de usar a água das jarras das flores nas campas ao redor para acordar a mulher, também ouvi dizer outra versão que a mulher começou a correr a gritar direita ao portão do cemitério e pla barreira abaixo com o Abílio Alves a correr atrás dela para a tentar acalmar.
Isto era e foi a conversa durante uns tempos em que trabalhei na agrária no Monte do Vale de Grou onde se ria a bom rir ao ouvir a história e a imaginar as cenas".
O "Salomão" da Comenda
Fernando Martins Oliveira acrescenta:
"O Sr. Abílio Alves foi um bom benfeitor da nossa Comenda, além do relógio da torre que ofereceu tinha sempre disponível o seu trator para acarretar o que fosse preciso para a freguesia, para ajudar nas festas acarretando junco e outras coisas, eu e outros como eu também por lá andávamos, em cima do trator era uma festa. Tinha a alcunha de "Salomão", nome de um ricalhaço brasileiro que entrava numa novela brasileira, salvo erro a "Gabriela".
